{"id":9092,"date":"2014-04-17T15:55:07","date_gmt":"2014-04-17T18:55:07","guid":{"rendered":"http:\/\/categero.org.br\/?p=9092"},"modified":"2014-10-30T20:25:46","modified_gmt":"2014-10-30T23:25:46","slug":"o-devoto-de-categero","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/categero.org.br\/antigo\/?p=9092","title":{"rendered":"O devoto de Categer\u00f3"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_9093\" style=\"width: 310px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/categero.org.br\/wp-content\/uploads\/2014\/04\/Recanto-pronto.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-9093\" class=\"size-medium wp-image-9093\" alt=\"Recanto pronto\" src=\"http:\/\/categero.org.br\/wp-content\/uploads\/2014\/04\/Recanto-pronto-300x95.jpg\" width=\"300\" height=\"95\" srcset=\"https:\/\/categero.org.br\/antigo\/wp-content\/uploads\/2014\/04\/Recanto-pronto-300x95.jpg 300w, https:\/\/categero.org.br\/antigo\/wp-content\/uploads\/2014\/04\/Recanto-pronto-495x157.jpg 495w, https:\/\/categero.org.br\/antigo\/wp-content\/uploads\/2014\/04\/Recanto-pronto.jpg 574w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-9093\" class=\"wp-caption-text\">Fizemos contato com o autor e estamos aguardando<\/p><\/div>\n<p align=\"right\">autor &#8211; Anunnnak<\/p>\n<p align=\"right\">(literatura)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" align=\"right\"><span style=\"text-align: justify;\">Severino, o Bio, para os mais \u00edntimos j\u00e1 estava morando em Ilh\u00e9us h\u00e1 uns tr\u00eas anos. Viera do interior, de uma currutela conhecida como Banco Central. Estava com vinte anos e n\u00e3o alentava nenhuma possibilidade de vencer, na vida, trabalhando em uma fazenda de cacau onde passara os anos colhendo, cortando, secando ensacando os gr\u00e3os da planta do chocolate. Era uma monotonia ferrada e n\u00e3o via a hora de deixar toda aquela trabalheira para tr\u00e1s e se mandar para a cidade grande.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ouvira dizer que para as bandas do Sul ou do Centro Oeste poderia ter melhores condi\u00e7\u00f5es de trabalho e de vida. A\u00ed, poderia at\u00e9 arrumar urna mulher de amiga\u00e7\u00e3o e juntar os tarecos&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o deu outra, no primeiro berro que ouviu do patr\u00e3o, um fazendeiro manhoso e ruim como a necessidade, passou a m\u00e3o na trouxa, pegou o primeiro caminh\u00e3o para Ilh\u00e9us e foi procurar o que fazer. Ao passar por uma obra que iniciava as funda\u00e7\u00f5es, procurou o mestre e indagou se n\u00e3o poderia lhe arranjar alguma coisa, um trabalho.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como n\u00e3o estava acostumado a nada al\u00e9m de cuidar das coisas da ro\u00e7a deu-se por satisfeito ao ser admitido como &#8220;auxiliar de servi\u00e7os gerais&#8221;, com um sal\u00e1rio m\u00ednimo por m\u00eas e a promessa de &#8220;carteira assinada&#8221;. Para isso precisaria providenciar os documentos necess\u00e1rios e apresentar-se pronto para o trabalho. Assim come\u00e7ou, Bio, a caminhada em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 vida nova.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Cheio de esperan\u00e7a, n\u00e3o enjeitava servi\u00e7o. 0 mestre e os pedreiros mais experientes o atarefavam de trabalho virando concreto, carregando massa, manejando areia, brita e os demais ingredientes comuns a esse tipo de servi\u00e7o bra\u00e7al.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c0 noite, na enxerga do barrac\u00e3o, agradecia a Santo Antonio de Categer\u00f3 e n\u00e3o pregava o olho sem mentalizar a ora\u00e7\u00e3o que aprendera com uma velha beata, paulista, que conhecera na Bahia: \u201cOh! Santo Antonio de Categer\u00f3! Ilumina\u00a1 os meus passos a \u00f1m de que, onde quer que eu v\u00e1, n\u00e3o encontre empecilhos e, guiado pela vossa luz, me desvie de todas as maldades&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ficava feliz por ter um trabalho, um lugarzinho para dormir e uma comidinha que, embora n\u00e3o fosse l\u00e1 essas coisas, dava para manter a barriga cheia e o corpo disposto para a dureza do trabalho na obra. Dali a algum tempo, queria ver o tamanho do pr\u00e9dio que ajudara a construir com aquele par de bra\u00e7os acostumados com a enxada e a vida dura do plantio do cacau.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nessa luta, Bio foi levando os seus dias e, no \u00f1nal do m\u00eas, j\u00e1 n\u00e3o se ag\u00fcentava de emo\u00e7\u00e3o imaginando a hora em que iria receber, do engenheiro chefe, o seu primeiro ordenado. Um sal\u00e1rio m\u00ednimo, com os descontos, dentro de um envelope com o nome dele escrito em letras gra\u00fadas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na sua primeira noite no barrac\u00e3o da obra, onde dormia com os demais oper\u00e1rios solteiros, ao fazer sua ora\u00e7\u00e3o, prometeu a Santo Ant\u00f4nio de Categer\u00f3 que, em paga da prote\u00e7\u00e3o, colocaria uma esmola de &#8220;vinte real&#8221; na caixinha de ofertas da igreja do bairro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Zeloso do seu emprego e refreado nos gastos, Bio foi juntando um dinheirinho e at\u00e9 abrira uma Conta Poupan\u00e7a numa ag\u00eancia pr\u00f3xima, do Banco do Brasil. Sentia-se vitorioso e nem lembrava mais daquela gente l\u00e1 da fazenda de Banco Central, aquela \u201ccurrutela\u201d que n\u00e3o atava nem desatava&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como era filho de mulher-dama, fora criado no \u201cbeco&#8221;, at\u00e9 que uma doen\u00e7a ven\u00e9rea fulminante levou sua m\u00e3e para a sepultura. Nunca soube quem era o pai e Neneca nem tinha ideia a respeito. Foram tantos que sequer arriscava um nome.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A \u00fanica lembran\u00e7a era a Zefa, uma negrinha rechonchuda que, bem cedo, andara descobrindo as coisas e costumava enroscar as pernas com ele em meio \u00e0s \u00e1rvores carregadas de frutos, na floresta de cacau. Aquilo era bom de mais e, mais ainda, porque era escondido. O pai dela nunca desconfiou de nada e ele se regozijava por isso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tr\u00eas anos se passaram e a obra chegou ao seu final. Um belo pr\u00e9dio de seis andares, com elevador e tudo. Ficou prontinho! Uma beleza! O engenheiro chamou o pessoal, pagou-lhes o \u00faltimo sal\u00e1rio e prometeu nova convoca\u00e7\u00e3o assim que tivesse um novo projeto aprovado. Nova constru\u00e7\u00e3o, novo trabalho para a equipe.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Bio resolveu n\u00e3o esperar mais. Seu tempo de Ilh\u00e9us estava terminado ali, na conclus\u00e3o do edif\u00edcio. Juntou seus trapos, pegou o dinheiro da Conta Poupan\u00e7a e tomou o rumo de Bras\u00edlia. Novos tempos, nova vida! Dizia para si mesmo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mal desembarcou na Rodovi\u00e1ria dedicou alguns momentos ao desfrute do \u00eaxtase, ao contemplar os monumentos de concreto e arte espalhados pelo seu campo de vis\u00e3o. Sentiu o peito cheio de um novo ar e a alma totalmente inundada de esperan\u00e7a. \u00c9 aqui que serei algu\u00e9m na vida! Pensava.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um dos oper\u00e1rios com os quais trabalhava, na obra de Ilh\u00e9us, havia conseguido um emprego de ajudante de armador em uma constru\u00e7\u00e3o grande, na cidade de Sobradinho. Fora esse o incentivador para que Bio deixasse Ilh\u00e9us e viesse para a Capital. N\u00e3o demorou muito e o colega o Iocalizara entre a pequena multid\u00e3o que transformava o lugar emtransformava o lugar em verdadeiro formigueiro humano.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Abra\u00e7os, cumprimentos, troca de gentilezas e os dois embarcaram em um \u00f4nibus para Sobradinho. Rumaram em dire\u00e7\u00e3o ao novo trabalho de Bio onde, ap\u00f3s as apresenta\u00e7\u00f5es de praxe, as formalidades foram cumpridas. O rapaz j\u00e1 estava empregado. Teria um sal\u00e1rio, tr\u00eas refei\u00e7\u00f5es, uma cama para dormir e um arm\u00e1rio de a\u00e7o para guardar seus pertences. Aqui, seria ajudante de pedreiro, com um sal\u00e1rio e mais gratifica\u00e7\u00f5es por produtividade e horas extras. Bio estava fora de si de t\u00e3o contente. Finalmente, estava vencendo na vida!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Urna semana j\u00e1 havia passado e o s\u00e1bado seria livre. Era feriado local e ningu\u00e9m iria trabalhar. Bio aproveitou para conhecer a cidade e familiarizar-se com as ruas, lojas e pontos mais importantes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando deu por si estava andando pela avenida principal, lugar em que se concentravam v\u00e1rias ag\u00eancias revendedoras de autom\u00f3veis usados. Repentinamente, uma esp\u00e9cie de v\u00edrus atacou o rapaz. Num descuido da raz\u00e3o, viu-se ao volante de um dos carros \u00e0 venda e, a partir daquele momento, jurou que a primeira coisa de valor que iria adquirir, seria um carro. Isso mesmo! Um carro!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas, centrado, Bio entendeu que aqueles que estavam expostos, n\u00e3o seriam adequados para o seu padr\u00e3o, mesmo considerando o dinheiro que possu\u00eda na Conta Poupan\u00e7a. De qualquer modo, havia prometido a si mesmo, que compraria um carro financiado desde que n\u00e3o ficasse comprometido com uma d\u00edvida exagerada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Continuando a caminhada, bem l\u00e1 no finalzinho da avenida encontrou uns carros expostos \u00e0 venda. Em um deles havia uma inscri\u00e7\u00e3o no parabrisas, &#8220;VENDO &#8211; Escort 85 &#8211; Dois mil real em d\u00e9is veis&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Bio n\u00e3o resistiu \u00e0 oferta. O desejo foi muito mais forte do que a raz\u00e3o. N\u00e3o deu outra! Conversa vai, conversa vem, o neg\u00f3cio foi fechado e Bio saiu com os documentos na m\u00e3o. Aprendera a dirigir, na ro\u00e7a, um velho trator \u201cAgrale&#8221;, com motor diesel que n\u00e3o andava mais r\u00e1pido do que vinte Km\/h. Agora estava sentado ao volante de um \u201cEscort 85&#8243;. 0 que iriam dizer, l\u00e1 na obra? E a turma na fazenda? Venceu ou n\u00e3o venceu na vida? Saiu todo prosa com o seu Escort rateando&#8230; Precisava de uns ajustes no distribuidor&#8230; Ia leva-Io a um mec\u00e2nico, l\u00e1 no outro lado da BR-O20.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De repente, os transeuntes s\u00e3o despertos pelo alarido das sirenes. Carros dos Bombeiros cruzavam as avenidas do Centro em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 sa\u00edda de Sobradinho, bem pr\u00f3ximo ao Supermercado Comper. Foram chamados para atender a um grave acidente. Urna carreta conduzindo algumas toneladas de gr\u00e3os de cacau esbaga\u00e7ou um Escort 85 que dera uma engasgada, sem chance de que o motorista pudesse escapar do choque.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os restos do motorista n\u00e3o tinham a quem ser entregues. Nem parentes, nem amigos, nada&#8230; Ningu\u00e9m&#8230; No peito do defunto, uma cordinha com um breve e a ora\u00e7\u00e3o a Santo Antonio de Categer\u00f3. Na placa do caminh\u00e3o, al\u00e9m dos quatro n\u00fameros havia a inscri\u00e7\u00e3o: &#8220;Ilh\u00e9us &#8211; BA&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><a href=\"http:\/\/categero.org.br\/wp-content\/uploads\/2014\/04\/Recanto-pronto.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-medium wp-image-9093\" alt=\"Recanto pronto\" src=\"http:\/\/categero.org.br\/wp-content\/uploads\/2014\/04\/Recanto-pronto-300x95.jpg\" width=\"300\" height=\"95\" srcset=\"https:\/\/categero.org.br\/antigo\/wp-content\/uploads\/2014\/04\/Recanto-pronto-300x95.jpg 300w, https:\/\/categero.org.br\/antigo\/wp-content\/uploads\/2014\/04\/Recanto-pronto-495x157.jpg 495w, https:\/\/categero.org.br\/antigo\/wp-content\/uploads\/2014\/04\/Recanto-pronto.jpg 574w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>autor &#8211; Anunnnak (literatura) Severino, o Bio, para os mais \u00edntimos j\u00e1 estava morando em Ilh\u00e9us h\u00e1 uns tr\u00eas anos. 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