{"id":573,"date":"2010-10-04T13:54:46","date_gmt":"2010-10-04T13:54:46","guid":{"rendered":"http:\/\/www.categero.org.br\/?page_id=573"},"modified":"2013-12-13T09:24:14","modified_gmt":"2013-12-13T12:24:14","slug":"2009-analise-de-procissoes-e-entrudos","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/categero.org.br\/antigo\/?page_id=573","title":{"rendered":"RJ\/2009 &#8211; An\u00e1lise de Prociss\u00f5es e Entrudos"},"content":{"rendered":"<p><strong>Revista de Hist\u00f3ria da Biblioteca Naciaonal n\u00ba 60 de 01\/04\/2009<\/strong><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.categero.org.br\/wp-content\/uploads\/2010\/10\/Hist-Bibliot-Nac.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-full wp-image-575\" title=\"Hist Bibliot Nac\" src=\"http:\/\/www.categero.org.br\/wp-content\/uploads\/2010\/10\/Hist-Bibliot-Nac.jpg\" alt=\"\" width=\"125\" height=\"169\" \/><\/a><br \/>\nAutor: Georgina Santos<\/p>\n<p>Nossa c\u00f3pia <a href=\"http:\/\/www.categero.org.br\/wp-content\/uploads\/2010\/10\/PDF.docx\">.doc<\/a> do presente trabalho.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.revistadehistoria.com.br\/v2\/home\/?go=detalhe&amp;id=2333\">http:\/\/www.revistadehistoria.com.br\/v2\/home\/?go=detalhe&amp;id=2333<\/a><\/p>\n<p>Ao contr\u00e1rio da tradi\u00e7\u00e3o cat\u00f3lica, que prega a priva\u00e7\u00e3o e o recolhimento, a Quaresma na Col\u00f4nia era marcada por festejos e prociss\u00f5es<br \/>\nGeorgina Santos<\/p>\n<p>No Brasil, o carnaval custa a terminar. Arrasta multid\u00f5es para as ruas de Norte a Sul, avan\u00e7ando sem pudores sobre o limite determinado pela quarta-feira de Cinzas. A atra\u00e7\u00e3o exercida pelos folguedos vem de longe e deu o que fazer ao clero e \u00e0s autoridades municipais ainda nos primeiros tempos da coloniza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Entre 1604 e 1691, uma s\u00e9rie de alvar\u00e1s e posturas tentou conter os abusos praticados durante o entrudo, ancestral do nosso carnaval. Com a inten\u00e7\u00e3o de afastar os colonos das batalhas recreativas com baldes d\u2019\u00e1gua, ovos, laranjinhas e lim\u00f5es de cheiro, os jesu\u00edtas introduziram, em 1616, a adora\u00e7\u00e3o de quarenta horas no decorrer do entrudo \u2013 como haviam feito em Portugal uma d\u00e9cada antes, pelo mesmo motivo. Ao longo dos tr\u00eas dias de folia, o Sant\u00edssimo Sacramento ficava exposto dia e noite num altar iluminado pela chama de vinte velas. Mas o empenho dos padres em antecipar o clima da Quaresma e destronar o entrudo foi insuficiente, e a iniciativa caiu no esquecimento.<\/p>\n<p>Passado o tempo de excessos, enfim a Igreja poderia fazer valer suas orienta\u00e7\u00f5es. Afinal, os quarenta dias que separam o carnaval da P\u00e1scoa eram considerados, desde o s\u00e9culo VII, um per\u00edodo preparat\u00f3rio dedicado ao jejum, \u00e0s priva\u00e7\u00f5es volunt\u00e1rias e \u00e0s mortifica\u00e7\u00f5es capazes de aproximar os fi\u00e9is do sofrimento vivenciado por Cristo.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o era bem assim que funcionava no Brasil. Ao longo da Quaresma, uma s\u00e9rie de eventos religiosos levava a popula\u00e7\u00e3o a se deslocar permanentemente entre missas e prociss\u00f5es, agitando a vida social a tal ponto que as id\u00e9ias de contri\u00e7\u00e3o e recolhimento evaporavam.<\/p>\n<p>Parte desse desvirtuamento se explica pela pr\u00f3pria natureza de nossa coloniza\u00e7\u00e3o. Foi lenta a instala\u00e7\u00e3o dos bispados em todo o territ\u00f3rio, e era pequeno o n\u00famero de cl\u00e9rigos capazes de orientar a popula\u00e7\u00e3o. O resultado foi, no geral, uma forma\u00e7\u00e3o cat\u00f3lica bastante superficial. N\u00e3o eram incomuns atos de franca zombaria e desrespeito \u00e0s figuras sagradas. Thomas Luis Teixeira, ex-alferes da infantaria e morador de Bel\u00e9m, foi denunciado ao Santo Of\u00edcio no Estado do Gr\u00e3o-Par\u00e1, em 1773, por desacato \u00e0 imagem de Cristo durante uma prociss\u00e3o da Quaresma. Thomas teria lan\u00e7ado com for\u00e7a, do sobrado onde morava, um vaso \u201cde imund\u00edcies f\u00e9tidas, escarosas\u201d sobre o andor que carregava o Senhor Crucificado. O impacto da pancada foi tamanho que espatifou a imagem e cobriu de excrementos os participantes do cortejo.<\/p>\n<p>E nem \u00e9 o caso de se culpar somente os colonos por sua f\u00e9 pouco ortodoxa. Em Portugal, na mesma \u00e9poca, a Quaresma estava longe de ser um per\u00edodo de abstin\u00eancia e medita\u00e7\u00e3o. Havia prociss\u00f5es todas as sextas-feiras, e o recomendado jejum era facilmente substitu\u00eddo por doa\u00e7\u00f5es caridosas \u00e0s obras de alguma par\u00f3quia. Assim, podia-se comer \u00e0 vontade, sem remorso. Toda prociss\u00e3o virava pretexto para reuni\u00f5es, bailes familiares e encena\u00e7\u00f5es c\u00f4micas regados a ch\u00e1s e bolos. At\u00e9 os monges se permitiam substituir a manteiga e o a\u00e7\u00facar do arroz-doce por leite de am\u00eandoas.<\/p>\n<p>Na Col\u00f4nia, como em Portugal, o in\u00edcio da Quaresma era marcado pela Prociss\u00e3o das Cinzas, realizada na quarta-feira ap\u00f3s o carnaval, sempre por iniciativa da Ordem Terceira de S\u00e3o Francisco. Institu\u00eddo no Rio de Janeiro, em Salvador e em Olinda no s\u00e9culo XVII, o cortejo passou a integrar o calend\u00e1rio das festas religiosas do Recife, da Para\u00edba, de S\u00e3o Lu\u00eds e de Vila Rica (Ouro Preto) somente no s\u00e9culo seguinte. No Rio, o evento aconteceu pela primeira vez em 1647 e, desde ent\u00e3o, tornou-se o mais espetaculoso da cidade.<\/p>\n<p>Anjos, virgens, confrades enfeitados, devotos com tochas acesas, cl\u00e9rigos e guardas militares desfilavam acompanhados de vinte andores adornados com luxo e riqueza. Ap\u00f3s as salvas de mosquetaria, a prociss\u00e3o descia a Ladeira de Santo Ant\u00f4nio, atravessava o Largo da Carioca e percorria as principais ruas do Centro, detendo-se nas v\u00e1rias igrejas do percurso. No fim, o pr\u00e9stito retornava ao Morro de Santo Ant\u00f4nio, onde a irmandade distribu\u00eda am\u00eandoas e confeitos \u00e0s crian\u00e7as que haviam figurado como anjos no cortejo.<\/p>\n<p>O evento das Cinzas tamb\u00e9m ficou conhecido como Prociss\u00e3o da Penit\u00eancia. Uma refer\u00eancia expl\u00edcita ao ex\u00e9rcito de flagelantes que, para purgar seus pecados, lanhavam os ombros com navalhas, bolas de cera aramadas ou cacos de vidro \u00e0 sa\u00edda do pr\u00e9stito. A cena causava como\u00e7\u00e3o entre os cat\u00f3licos praticantes e os espectadores mais sens\u00edveis, mas provocou estranheza no viajante franc\u00eas Le Gentil de La Barbinais, que considerou o espet\u00e1culo extravagante e falso, ao visitar Salvador em 1717. Sobretudo depois de constatar que muitos participantes se mortificavam com viol\u00eancia diante das donzelas para despertar compaix\u00e3o.<br \/>\nEm Olinda e no Recife, o cortejo tamb\u00e9m atra\u00eda multid\u00f5es. Na capital pernambucana, a prociss\u00e3o era aberta pelo \u201cpapa-angu\u201d, figura que se vestia com uma longa t\u00fanica preta, mantendo a cabe\u00e7a coberta por um capuz com dois orif\u00edcios na altura dos olhos, e munido de um comprido relho, destinado a fustigar aqueles que obstru\u00edam sua passagem. Conhecido noutras paragens como \u201cfarricoco\u201d, o tipo participava de outros cortejos, como o do Senhor dos Passos, criado para recordar o drama de Jesus Cristo at\u00e9 o calv\u00e1rio. A prociss\u00e3o assumia a forma de um teatro volante e detinha-se em v\u00e1rios pontos para encenar os epis\u00f3dios mais marcantes da Paix\u00e3o. Em Portugal, acreditava-se que aqueles que seguissem por sete anos a fio a prociss\u00e3o dos Passos teriam a garantia de n\u00e3o morrer em pecado mortal.<\/p>\n<p>O cl\u00edmax das cerim\u00f4nias religiosas ocorria na Semana Santa, com as prociss\u00f5es de Fogar\u00e9us, na quinta-feira de Endoen\u00e7as, e do Senhor Morto, na sexta-feira da Paix\u00e3o. Organizada pela Santa Casa da Miseric\u00f3rdia, a de Endoen\u00e7as recordava a \u00daltima Ceia e n\u00e3o exibia andores nem imagens de santos ou da Virgem, apenas um painel com o Cristo coroado de espinhos. Duas longas filas de homens vestidos com casac\u00f5es negros de capuz iluminavam o trajeto com uma esp\u00e9cie de candeeiro preso a uma vara de pau, da\u00ed o nome Fogar\u00e9us. Uma legi\u00e3o de flagelantes catalisava as aten\u00e7\u00f5es: nus da cintura para cima e armados de chicotes, a\u00e7oitavam a si mesmos insuflados pelos farricocos.<\/p>\n<p>No dia seguinte, sexta-feira da Paix\u00e3o, tinha lugar a prociss\u00e3o do Senhor Morto ou do Enterro, realizada pela Ordem Terceira do Carmo. No Rio de Janeiro, o evento teve in\u00edcio em 1658 com toda pompa e circunst\u00e2ncia: aberto pela guarda militar, conduzia uma grande cruz al\u00e7ada com o Santo Sud\u00e1rio tran\u00e7ado em seus bra\u00e7os, escoltado por tocheiros. Na seq\u00fc\u00eancia, crian\u00e7as ricamente vestidas de anjos carregavam os emblemas da Paix\u00e3o e abriam caminho para os irm\u00e3os do Carmo. Atr\u00e1s, sob um luxuoso p\u00e1lio cercado de c\u00edrios com tochas de cera roxa, avistava-se um esquife de prata com o Senhor Morto, parcialmente coberto por um manto violeta de franjas douradas. O ata\u00fade se deslocava sobre o ombro de cl\u00e9rigos, \u201cconvidados mediante pagamento de compensadora propina\u201d.<\/p>\n<p>\u00c1vidas por demonstrar sua sincera devo\u00e7\u00e3o e as qualidades morais de seus membros, as fam\u00edlias mais not\u00e1veis acompanhavam o f\u00e9retro representando personagens da Paix\u00e3o: Madalena, S\u00e3o Jo\u00e3o Evangelista, Ver\u00f4nica, Jos\u00e9 de Arimat\u00e9ia e Nicodemos. Em seguida vinham o Anjo Cantor \u2013 representado por uma jovem escolhida entre as fam\u00edlias mais abastadas \u2013, a guarda romana e a imagem de Nossa Senhora das Dores, ladeada por uma guarda de honra e trajada com um manto de veludo bordado a ouro, j\u00f3ias valiosas e um resplendor de ouro sobre a coroa. Encerrando o desfile, a banda, com seus instrumentos adornados por la\u00e7os de crepe, executava as marchas f\u00fanebres que embalavam o cortejo.<\/p>\n<p>O espet\u00e1culo da prociss\u00e3o do Senhor Morto era disputad\u00edssimo e atra\u00eda praticamente toda a popula\u00e7\u00e3o da cidade, movimentando o com\u00e9rcio ambulante. Nas cal\u00e7adas e no v\u00e3o das portas, negras vendiam bijus, pamonhas, cuscuz e arroz-doce em seus tabuleiros, faturando para si e para as sinh\u00e1s. A mesma oportunidade tinham os aguadeiros e os vendedores de alu\u00e1 (esp\u00e9cie de suco com frutas ou farinha). Os privilegiados, que moravam no itiner\u00e1rio da prociss\u00e3o, ornavam suas janelas com colchas de damasco e recebiam, com gosto ou a contragosto, parentes e amigos para assistir ao desfile.<\/p>\n<p>No s\u00e1bado de Aleluia, era a vez de um rito vibrante e barulhento: a malha\u00e7\u00e3o do Judas. Representado por bonecos de palha ou de pano, preso em postes de ilumina\u00e7\u00e3o p\u00fablica ou em galhos de \u00e1rvores (numa alus\u00e3o ao seu suic\u00eddio), o ap\u00f3stolo traidor era queimado pelos populares aos gritos, logo depois que os sinos anunciavam a aleluia lit\u00fargica. Personifica\u00e7\u00e3o das for\u00e7as do mal, a boneco do Judas \u00e9, segundo alguns, um resqu\u00edcio de antigos ritos agr\u00e1rios europeus. A destrui\u00e7\u00e3o de sua imagem representava para as comunidades camponesas a expurga\u00e7\u00e3o do mal e a certeza de uma boa colheita. Embora revestida de significado crist\u00e3o, a pr\u00e1tica adquiriu nova fun\u00e7\u00e3o: limitar as a\u00e7\u00f5es consideradas impr\u00f3prias \u00e0 comunidade que malha o Judas \u2013 em seu corpo desengon\u00e7ado coloca-se o nome da vizinha fofoqueira, do marido ad\u00faltero, do comerciante ganancioso&#8230; O ato depura as a\u00e7\u00f5es e os pensamentos nocivos de cada um dos participantes, preparando-os para a renova\u00e7\u00e3o anunciada pelo domingo de P\u00e1scoa.<\/p>\n<p>Depois de longos quarenta dias de \u201cpriva\u00e7\u00e3o\u201d, \u00e9 hora enfim de festejar: que venham os presentes e os ovos de chocolate!<\/p>\n<p>Georgina Santos \u00e9 professora de Hist\u00f3ria da Universidade Federal Fluminense (UFF) e autora de Of\u00edcio e sangue: a Irmandade de S\u00e3o Jorge a Inquisi\u00e7\u00e3o na Lisboa Moderna (Lisboa: Edi\u00e7\u00f5es Colibri, 2005).<\/p>\n<p>Saiba Mais &#8211; Bibliografia:<\/p>\n<p>CAMPOS, Jo\u00e3o da Silva. Prociss\u00f5es tradicionais da Bahia. Salvador: Conselho Estadual de Cultura, 2001. 2\u00aa edi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>CASCUDO, Lu\u00eds da C\u00e2mara. Dicion\u00e1rio do Folclore Brasileiro. Editora Itatiaia, 1984.<\/p>\n<p>COARACY, Vivaldo. Mem\u00f3rias da cidade do Rio de Janeiro. S\u00e3o Paulo: Editora da Universidade de S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>Ovo que vem de longe<\/p>\n<p>Coelhinho da P\u00e1scoa, o que trazes pra mim?<br \/>\nUm ovo, dois ovos, tr\u00eas ovos assim<br \/>\nCoelhinho da P\u00e1scoa, que cor eles t\u00eam?<br \/>\nAzul, amarelo e vermelho tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>A quadrinha popular que se ouve na voz da crian\u00e7ada com a proximidade da P\u00e1scoa anuncia a troca de guloseimas no domingo que encerra a Semana Santa. A tradi\u00e7\u00e3o \u00e9 antiga na Europa, remonta ao s\u00e9culo XIII, quando os estudantes da Universidade de Paris, ap\u00f3s entoarem salmos e c\u00e2nticos de louvor a Deus em frente \u00e0 catedral, sa\u00edam, organizados em prociss\u00e3o, recolhendo presentes. As ofertas, especialmente ovos, eram distribu\u00eddas para parentes, amigos e vizinhos. Os ovos, tingidos de azul ou vermelho, simbolizavam o renascimento, a ressurrei\u00e7\u00e3o e a imortalidade.<br \/>\nConfeccionados em madeira ou argila, com o tempo eles passaram a ser pintados e decorados com requinte. No Brasil, o costume de receber e distribuir ovos de P\u00e1scoa data apenas dos anos 1920, introduzido pela coloniza\u00e7\u00e3o alem\u00e3 nas cidades do Sul. Aos poucos, a pr\u00e1tica se espalhou em massa de chocolate pelas confeitarias do resto do pa\u00eds, para o pecado de todos.<br \/>\nDoce pecado<\/p>\n<p>Em nossa tradi\u00e7\u00e3o, \u00e9 imposs\u00edvel n\u00e3o associar o chocolate \u00e0 P\u00e1scoa, festa maior do cristianismo. Desejar \u201cFeliz P\u00e1scoa\u201d a algu\u00e9m \u00e9 um costume que quase sempre vem acompanhado de um presente previs\u00edvel: um ovo de chocolate \u2013 ou, simplesmente, um \u201covo de P\u00e1scoa\u201d. Mas a rela\u00e7\u00e3o entre a iguaria e a religi\u00e3o que est\u00e1 na base da cultura ocidental nem sempre foi pac\u00edfica.<\/p>\n<p>A guloseima, originalmente consumida por \u201cpag\u00e3os\u201d americanos e que caiu no gosto das altas rodas da Europa, era cercada de mist\u00e9rios, como no caso dos chocolates arom\u00e1ticos das cortes italianas, como revela Eddy Stols nesta edi\u00e7\u00e3o. Os M\u00e9dici, titulares do gr\u00e3o-ducado da Toscana, mantinham segredo absoluto sobre a receita do chocolate com aroma de jasmim, cobi\u00e7ado por outras casas europ\u00e9ias. Sua f\u00f3rmula era guardada em uma caixa-forte. A Igreja, como se sabe, n\u00e3o via com bons olhos mist\u00e9rios que n\u00e3o estavam sob sua guarda.<\/p>\n<p>Mas o apre\u00e7o pelo produto n\u00e3o era resultado apenas do aroma irresist\u00edvel ou do paladar inigual\u00e1vel. Al\u00e9m de saboroso, o chocolate era apreciado por suas virtudes terap\u00eauticas. Em meio a um verdadeiro frenesi, n\u00e3o tardaram a surgir, no s\u00e9culo XVII, as primeiras den\u00fancias de abuso na sua ingest\u00e3o. E numa \u00e9poca profundamente marcada pela religi\u00e3o, o debate se dava na esfera da Igreja. De um lado, jesu\u00edtas cantavam as del\u00edcias do cacau; do outro, os dominicanos lamentavam o novo v\u00edcio europeu.<\/p>\n<p>A Europa, terra do vinho, era aos poucos invadida por legi\u00f5es de beberr\u00f5es de chocolate \u2013 inicialmente a Espanha, e posteriormente o resto do continente; nos caf\u00e9s que se multiplicavam no rastro de outra bebida famosa, homens amanheciam em busca das primeiras doses do l\u00edquido turvo; nos pal\u00e1cios e nas casas mais refinadas, as x\u00edcaras passavam a figurar ao lado das ta\u00e7as, em lugar de destaque. Quente ou gelado, l\u00edquido ou pastoso, puro ou com aguardente, tomava-se chocolate de todas as maneiras, com o objetivo de estimular os sentidos de formas inusitadas.<\/p>\n<p>Acreditava-se ainda que o chocolate possu\u00eda a propriedade de aquecer o sangue, despertando \u201cvirtudes\u201d que eram sistematicamente combatidas pela Igreja. O italiano Francesco Arisi, autor de um tratado intitulado Il cioccolato, de 1736, versejava contra a iguaria:<\/p>\n<p>Nos torr\u00f5es j\u00e1 \u00e9 usado,<br \/>\nNas tortas \u00e9 o principal.<br \/>\nPenso, pois, que ainda um dia,<br \/>\nV\u00e3o servi-lo com codornas,<br \/>\nDesdenhando o santo p\u00e3o<br \/>\nOu colocando-o de parte.<\/p>\n<p>Os pr\u00f3prios jesu\u00edtas, que elogiaram seu uso na It\u00e1lia, chegaram a dizer em Portugal, onde o h\u00e1bito de beber chocolate se alastrou no s\u00e9culo XVIII, que o produto era um estimulante sexual. Contrariando a interpreta\u00e7\u00e3o tradicional de S. Tom\u00e1s de Aquino, para quem l\u00edquidos n\u00e3o quebravam o jejum, exigiram sua proibi\u00e7\u00e3o durante o per\u00edodo da Quaresma, quando os crist\u00e3os deveriam se afastar dos prazeres da carne (em todos os sentidos). Tentativa in\u00fatil, pois o papa, em Roma, cedendo \u00e0 press\u00e3o dos primeiros choc\u00f3latras, e para a felicidade de quase todos, autorizou o pecado durante o ano inteiro. (Equipe Revista de Hist\u00f3ria)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Revista de Hist\u00f3ria da Biblioteca Naciaonal n\u00ba 60 de 01\/04\/2009 Autor: Georgina Santos Nossa c\u00f3pia .doc do presente trabalho. http:\/\/www.revistadehistoria.com.br\/v2\/home\/?go=detalhe&amp;id=2333 Ao contr\u00e1rio da tradi\u00e7\u00e3o cat\u00f3lica, que prega a priva\u00e7\u00e3o e o recolhimento, a Quaresma na Col\u00f4nia era marcada por festejos e prociss\u00f5es Georgina Santos No Brasil, o carnaval custa a terminar. 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