{"id":516,"date":"2010-10-03T01:17:29","date_gmt":"2010-10-03T01:17:29","guid":{"rendered":"http:\/\/www.categero.org.br\/?page_id=516"},"modified":"2013-12-13T09:30:45","modified_gmt":"2013-12-13T12:30:45","slug":"2010-quando-foi-mesmo-que-eu-conheci-categero-poars","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/categero.org.br\/antigo\/?page_id=516","title":{"rendered":"2010 &#8211; Quando foi mesmo que eu conheci Categer\u00f3? Poa\/RS"},"content":{"rendered":"<p><strong>N\u00e3o sei quando, realmente, conheci Categer\u00f3?<\/strong><\/p>\n<p>Dentre as certezas que tenho, \u00e9 de que n\u00e3o foi quando minha m\u00e3e, nos seus quase setenta anos de idade, l\u00e1 pelos idos de 1999, pediu-me para auxili\u00e1-la e encaminhar a distribui\u00e7\u00e3o de santinhos de Categer\u00f3 no sistema prisional, da Capial ga\u00facha. Era um pacote com um mil santinhos. Ali, eu tomei conhecimento de que ele existia e da admira\u00e7\u00e3o de minha m\u00e3e (a dona Mariana) por aquele santo que me era totalmente desconhecido.<\/p>\n<p>Fique curioso, pesquisei na internet e adquiri o livro \u201csinal prof\u00e9tico do empenho pelos pobres\u201d do Monsenhor Guastella e li. Achei uma leitura interessante. Era fora do lugar comum da literatura religiosa. Era uma pesquisa e apresentava vasta anota\u00e7\u00e3o nos rodap\u00e9s das p\u00e1ginas. Bem pr\u00f3pria do que eu estava habituado a conviver &#8211; pesquisas.  Aprisionou a minha curiosidade, na internet exissirem, \u00e0 \u00e9poca, muitas cita\u00e7\u00f5es de que ele n\u00e3o era cat\u00f3lico e alguns pejos e inverdades.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m n\u00e3o o foi quando, em viagem a trabalho estive no Rio de Janeiro e, compareci \u00e0 igreja que leva seu nome, de onde se avista ao alto, a igreja de Nossa Senhora da Penha, com sua majestosa escadaria. A pequena igreja ou Capela de Categer\u00f3 estava fechada e n\u00e3o consegui adentrar. Confesso que ali, meu senso cr\u00edtico fez a compara\u00e7\u00e3o de duas faces do mundo Cat\u00f3lico. N\u00e3o a compara\u00e7\u00e3o de devo\u00e7\u00f5es ou de valores iconogr\u00e1ficos. N\u00e3o. Mas apreendi uma vis\u00e3o ampla das diferentes formata\u00e7\u00f5es sociais da pr\u00f3pria igreja em sua diversidade. Entendi um pouco de que Categer\u00f3 ainda estava, mesmo que santificado ou equivalente \u2013 e, apesar de consagrado popularmente, ainda era um cativo. Aquela vis\u00e3o f\u00edsica contrastante me enterneceu e resolvi que gostaria de melhor entender a sal caminhada e seu projeto de vida.<\/p>\n<p>J\u00e1 no avi\u00e3o, para o meu retorno a Porto Alegre, sem ter nada de material acrescentado, sobre o que eu j\u00e1 sabia do Beato, comecei uma reflex\u00e3o de, se visitar a igreja era meu \u00fanico objetivo. Minha estada no Rio de Janeiro, pr\u00f3ximo a um templo de Categer\u00f3, n\u00e3o poderia ser em v\u00e3o. Da leitura de sua vida e de como ele fazia o atendimento de sua clientela, fiz conex\u00e3o com minha atua\u00e7\u00e3o profissional, a seguran\u00e7a p\u00fablica. Categer\u00f3 tem uma identidade muito forte com a esse setor governamental de presta\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os p\u00fablicos. N\u00e3o com as institui\u00e7\u00f5es ou com as corpora\u00e7\u00f5es, nem com o Estado. Ele se identifica com a clientela problematizada e problematizante: os fam\u00e9licos, os moradores de rua, os apenados, cumprindo penas, os que se encontram em liberdade condicional, os que retornam das cadeias sem perspectiva ou, mesmo os evadidos. At\u00e9 as demais pessoas dos redutos sociais onde estas criaturas de Deus se agrupam ou, se misturam com outras, no limite dessas mesmas car\u00eancias. N\u00e3o s\u00f3 p\u00e3o, mas o acolhimento que lhes falta. Foi a\u00ed que me veio o \u201cinsigth\u201d de trabalhar para que Santo Antonio de Categer\u00f3 possa vir a ser consagrado o padroeiro da seguran\u00e7a p\u00fablica brasileira.<\/p>\n<p>E de volta comecei a esbo\u00e7ar um projeto de pesquisa sobre Categer\u00f3.  Localizei, atrav\u00e9s da igreja S\u00e3o Carlos de Porto Alegre, o Tilton de Canoas\/RS, a pessoa que com sua esposa, provavelmente tenham importado para o extremo Sul do Brasil, essa devo\u00e7\u00e3o. Eles que visitaram a cidade de Noto, na It\u00e1lia, visitando o mausol\u00e9u com os restos mortais do Beato. <\/p>\n<p>Havia a id\u00e9ia de torna-lo Padroeiro da Seguran\u00e7a P\u00fablica. Mas, tamb\u00e9m, a de ser elaborada uma pesquisa de como essa devo\u00e7\u00e3o se deslocou da \u00c1frica, para a Europa (Portugal) e dali para o Brasil. E neste (no Brasil) de como percorreu o nosso pa\u00eds continente chegando ao Rio Grande do Sul na d\u00e9cada de noventa, a \u00faltima do s\u00e9culo XX. J\u00e1 estavam reunidos os elementos m\u00ednimos para a elabora\u00e7\u00e3o correta de um problema.<\/p>\n<p>Algu\u00e9m morre (Categer\u00f3) em 1549 e em 1699 j\u00e1 est\u00e1 consagrado popularmente na Bahia, do outro lado do Atl\u00e2ntico, e em outros estados do nordeste brasileiro. De imediato sua devo\u00e7\u00e3o chega aos principais centros do pa\u00eds, Rio de Janeiro e S\u00e3o Paulo. Estranh\u00e1vel \u00e9 esta devo\u00e7\u00e3o chegar ou ponto meridional do Brasil s\u00f3 ap\u00f3s 1990. A devo\u00e7\u00e3o levou cento e cinq\u00fcenta anos ap\u00f3s a morte de Categer\u00f3 para chegar aos principais centros brasileiros e leva o dobro desse tempo (300 anos), ou mais uma vez esse mesmo tempo para chegar ao sul do pa\u00eds. Esse se tornou o fen\u00f4meno a ser pesquisado.<\/p>\n<p>Nas minhas buscas e coletas me deparei com a Tese de Doutorado, apresentada ao Departamento de Hist\u00f3ria do Instituto de Filosofia e Ci\u00eancias Humanas da Universidade Estadual de Campinas, sob a orienta\u00e7\u00e3o da Prof.\u00aa Dr.\u00aa Silvia Hunold Lara, com o t\u00edtulo \u201cOs Ros\u00e1rios dos Angolas : irmandades negras, experi\u00eancias escravas e identidades africanas na Bahia setecentista\u201d. Nesse trabalho destaco em Particular dois campos da informa\u00e7\u00e3o que eu buscava.<\/p>\n<p>O primeiro que trata da cria\u00e7\u00e3o da Irmandade de Categer\u00f3 em 1699. \u201cOs estatutos da Irmandade de Santo Ant\u00f4nio de Catagerona foram submetidos \u00e0 aprova\u00e7\u00e3o do Arcebispado da Bahia no ano de 1699. Consta no parecer do padre provisor uma reprimenda com respeito a imagem do santo pintada na capa do compromisso. Segundo o provisor e mestre escola Dom Sebasti\u00e3o dos Vale Pontes, era incorreta a representa\u00e7\u00e3o do santo com o Cristo Menino nos bra\u00e7os \u201cporque ainda que conste da sua vida ser muito devoto do sant\u00edssimo Nome de Jesus: n\u00e3o consta que este senhor em forma de menino lhe aparecesse, ou fizesse alguns favores, que \u00e9 o que move a Igreja a permitir os Santos com o Menino Jesus nos bra\u00e7os\u201d, por este motivo, indicou em seu parecer \u201cque at\u00e9 mais clara not\u00edcia, se pintem, e fa\u00e7am as Imagens deste santo (&#8230;) com uma cruz nas m\u00e3os, como se acha na casa dos 3os. De S\u00e3o Francisco desta Cidade\u201d. Parecer do Padre Provisor Doutor Sebasti\u00e3o do Vale Pontes sobre o Compromisso da Irmandade de Santo Antonio de Categerona, cita na matriz de S\u00e3o Pedro na cidade da Bahia, 1699. Inclusive \u00e9 bem clara a situa\u00e7\u00e3o descrita de que a igreja, hoje denominada Nossa Senhora do Ros\u00e1rio dos Pretos, em Salvador\/BA, s\u00f3 n\u00e3o se tornou a igreja de Santo Ant\u00f4nio de Categer\u00f3, por indeferimento da c\u00fapula cat\u00f3lica local da \u00e9poca. (pg 73\/75 do trabalho)<\/p>\n<p>E o segundo apresenta a narrativa de prociss\u00f5es em Portugal, feitas pelo Pe. Israel Ruders (Viagem em Portugal, 1798-1802, Lisboa: Biblioteca Nacional, 1981, p. 52.) que presenciou uma das mais importantes prociss\u00f5es do Lisboa. \u201cNa prociss\u00e3o de Santo Ant\u00f4nio de Lisboa desfilavam quantidades de imagens, algumas representando Santo Ant\u00f4nio e o Redentor nos bra\u00e7os\u201d. Dentre as in\u00fameras imagens, a de um santo preto era um dos atrativos da prociss\u00e3o. \u201cO andor deste santo preto, de l\u00e1bios grossos, e acompanhado por padres da mesma cor, seguidos de uma multid\u00e3o de pretos e mulatos\u201d. \u00c9 prov\u00e1vel que o santo preto que desfilava na prociss\u00e3o fosse o particular Santo Ant\u00f4nio dos negros. Al\u00e9m da cita\u00e7\u00e3o no Reino da Angola, da devo\u00e7\u00e3o ao Santo Ant\u00f4nio preto tamb\u00e9m conhecida, sendo que no testamento datado de 21 de dezembro de 1789, de Jos\u00e9 Manuel, comerciante na cidade de Benguela, ele determina que seu corpo deveria ser amortalhado em mortalha branca segundo o costume da terra, e conduzido no esquife de Santo Ant\u00f4nio de Catalagerona, acompanhado pelos seus irm\u00e3os para a igreja da Freguesia de Nossa Senhora de Populo, onde declarou querer ser sepultado.<\/p>\n<p>Outro campo de atua\u00e7\u00e3o foi encontrado em diversas pesquisas que abordam a Prociss\u00e3o de Cinzas e, destas, as organizadas e administradas pelas Ordens Terceiras de S\u00e3o Francisco da Penit\u00eancia, tanto na Bahia, quanto no Rio de Janeiro e em S\u00e3o Paulo. \u00c9 farta a narrativa de andor ocupado por Categer\u00f3 nesses eventos. Esse tipo de festa religiosa, tamb\u00e9m era usual em Portugal e na Espanha. Sendo que em Portugal havia tamb\u00e9m andor para o Categer\u00f3. Os santos usados nessas prociss\u00f5es, alguns est\u00e3o em museus de arte sacra, como os santos de vestir e de roca. Estas prociss\u00f5es duraram, em alguns lugares quase um s\u00e9culo e meio. Elas foram suspensas por estarem perdendo o sentido da religiosidade e sendo absorvidas por manifesta\u00e7\u00f5es de cunho popular. No v\u00e1cuo delas surge o carnaval. A diversidade dos v\u00e1rios tipos de carnavais brasileiros j\u00e1 podia ser pressentida nelas.<\/p>\n<p>Trecho retirado do trabalho \u201cA Prociss\u00e3o das Cinzas no Brasil\u201d, de Anderson Moura, OFS\/JUFRA,publicado \u201cIn Boletim da Par\u00f3quia N. S. da Concei\u00e7\u00e3o, Nil\u00f3polis-Brasil, n. 9, p. 7, mar. 2003.\u201d:<\/p>\n<p>\u201cA Prociss\u00e3o era uma manifesta\u00e7\u00e3o religiosa de grande import\u00e2ncia que se iniciou em 1647 e foi at\u00e9 1861 no Rio de Janeiro, mas que era constante tamb\u00e9m em outros lugares, a exemplo de Lisboa e Recife. Ela se destacava pela originalidade e riqueza cenogr\u00e1fica de paramentos e atos lit\u00fargicos divididos em alas com andores decorados (verdadeiras alegorias), separadas por anjos e cartazes explicativos. Segundo o saudoso frei Egberto Prangenberg (falecido em Agosto \u00faltimo, aos 93 anos), que descreveu a Prociss\u00e3o em seu livro Francisco entre os seculares (RJ: 1996), o evento \u00e9 compar\u00e1vel somente \u00e0s exibi\u00e7\u00f5es carnavalescas de hoje. A passagem da Prociss\u00e3o causava grande impacto e entusiasmo na popula\u00e7\u00e3o. A participa\u00e7\u00e3o de todos os membros da Ordem, inclusive, era obrigat\u00f3ria e quem n\u00e3o pudesse ir deveria pagar uma esp\u00e9cie de multa.\u201d<\/p>\n<p>Aqui, foi quando realmente, conheci Categer\u00f3.<\/p>\n<p>Foi a partir dos campos de atua\u00e7\u00e3o, acima descritos, das dificuldades constantes na vida de um verdadeiro santo, que descobri, compreendi e conheci Categer\u00f3. Ele que sobrou em alguns altares de igrejas, capelas e conventos em todo o Brasil; que foi recolhido e cadastrado nos museus com os santos de vestir, os santos de rocas e as alfaiais lit\u00fargicas; que sobrevive na historiografia da devo\u00e7\u00e3o do povo, que n\u00e3o foi assumido ou preferencial de nenhuma ordem religiosa; que s\u00f3 existia e participava pela imposi\u00e7\u00e3o popular. \u00c9 ele que aos poucos come\u00e7a a retomar para seu caminho evangelizador, como sempre o fez. Apesar de sua breve vida erem\u00edtica, Categer\u00f3 foi um evangelizador. \u00c9 o evangelizador que desenvolveu sua f\u00e9, durante a compuls\u00e3o escravagista de seu corpo, mas se tornou liberto, em seu esp\u00edrito, por entreg\u00e1-lo a Cristo e ser caridoso em sua alma para com todos. Ele que por raz\u00f5es de um terremoto cai no esquecimento na It\u00e1lia, e tamb\u00e9m no Brasil, \u00e9 parcialmente esquecido (n\u00e3o sendo preferencial de nenhuma ordem) pelo o t\u00e9rmino das prociss\u00f5es de cinzas; Ele, ainda arde como uma brasa, pronto a incandescer todo um sentimento de f\u00e9 entre tr\u00eas continentes, comprovando a alteridade entre homens, ra\u00e7as, credos e continentes.<\/p>\n<p>Sou devoto de Categer\u00f3 e o entendo como um excelente Padroeiro para a Seguran\u00e7a P\u00fablica Brasileira, mas n\u00e3o s\u00f3&#8230;<br \/>\nAutor do Paper: Vanderlei Martins Pinheiro \u2013 Adm do Portal<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>N\u00e3o sei quando, realmente, conheci Categer\u00f3? 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