{"id":251,"date":"2010-10-02T13:23:06","date_gmt":"2010-10-02T13:23:06","guid":{"rendered":"http:\/\/www.categero.org.br\/?page_id=251"},"modified":"2013-12-13T09:31:29","modified_gmt":"2013-12-13T12:31:29","slug":"1999-revista-pime-n%c2%ba-32-por-maria-jose-de-deus","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/categero.org.br\/antigo\/?page_id=251","title":{"rendered":"1999 &#8211; Revista Pime n\u00ba 32 por Maria Jos\u00e9 de Deus"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"http:\/\/www.categero.org.br\/wp-content\/uploads\/2010\/10\/PIMEindex_01.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.categero.org.br\/wp-content\/uploads\/2010\/10\/PIMEindex_01.jpg\" alt=\"\" title=\"PIMEindex_01\" width=\"186\" height=\"107\" class=\"aligncenter size-full wp-image-253\" \/><\/a><\/p>\n<p>Revista n\u00ba 32, de mar\u00e7o de 1999, p\u00e1gina 38, artigo Ra\u00edzes de um povo religioso, de autoria de Maria Jos\u00e9 de Deus.<\/p>\n<p>Como os antepassados, os afro-descendentes manifestam uma religiosidade rica em s\u00edmbolos e significados, comprometida com a causa do povo negro e expressa nas festas e celebra\u00e7\u00f5es.<br \/>\nMais de um s\u00e9culo depois de a princesa Isabel assinar a Lei \u00c1urea, pondo fim \u00e0 aboli\u00e7\u00e3o da escravatura, poucos negros ocupam lugar de destaque na pol\u00edtica e economia do pa\u00eds, mesmo formando um contigente de aproximadamente 43% da popula\u00e7\u00e3o brasileira.<br \/>\nAinda se constr\u00f3i uma hist\u00f3ria baseada no preconceito disfar\u00e7ado e na resist\u00eancia cont\u00ednua por parte da comunidade negra e de alguns segmentos da sociedade, buscando modificar essa conjuntura que exclui cerca de 60 milh\u00f5es de afro-descendentes.<br \/>\nNo \u00e2mbito eclesial, algumas iniciativas nesse sentido foram tomadas a partir da d\u00e9cada de 60, com o Conc\u00edlio Vaticano II e seus desdobramentos em Medellin (1968) e Puebla (1979), quando a Igreja passa a adotar novas linhas de reflex\u00e3o e atua\u00e7\u00e3o, questionando as causas da marginaliza\u00e7\u00e3o na Am\u00e9rica latina e fazendo uma op\u00e7\u00e3o preferencial pelos pobres.<br \/>\n&#8220;Os negros come\u00e7am a se organizar quando percebem que est\u00e3o sendo contemplados com essas medidas e que a Igreja latino-americana passa a identificar-se com eles&#8221;, conta o padre Jos\u00e9 Enes da igreja Nossa Senhora de Casaluce, no bairro do Br\u00e1s, em S\u00e3o Paulo.<br \/>\nDa\u00ed se justificar, nas d\u00e9cadas seguintes, o aparecimento de v\u00e1rios movimentos dentro da Igreja cat\u00f3lica &#8211; que hoje somam mais de uma dezena &#8211; voltados para a sensibiliza\u00e7\u00e3o e preserva\u00e7\u00e3o das ra\u00edzes culturais, o resgate da d\u00edvida social para com os negros e empenhados na educa\u00e7\u00e3o dos jovens para o mercado de trabalho.<br \/>\nEssas reflex\u00f5es sobre negritude e f\u00e9 t\u00eam seu ponto alto no Encontro Nacional de Padres, Bispos e Di\u00e1conos Negros que, a cada ano, consegue reunir cerca de 600 representantes dos Agentes de Pastoral Negros (APNs), Instituto Mariama de Articula\u00e7\u00e3o de Padres, Bispos e Di\u00e1conos Negros (IMA), Grupo de Reflex\u00e3o Negro e Ind\u00edgena da Confer\u00eancia dos Religiosos do Brasil (Greni), Congadas, Irmandades e at\u00e9 religiosos e leigos de pa\u00edses africanos.<br \/>\nNesses encontros, entre outras conclus\u00f5es, foi poss\u00edvel constatar que de um total de 400 bispos brasileiros, cinco s\u00e3o negros e de 14 mil padres, apenas 500 s\u00e3o afro-descendentes. Al\u00e9m disso, os movimentos t\u00eam buscado uma aproxima\u00e7\u00e3o com os cultos africanos, favorecendo a incultura\u00e7\u00e3o e o di\u00e1logo inter-religioso, incentivados por Jo\u00e3o Paulo II. O papa \u00e9 um incans\u00e1vel defensor do respeito e da aproxima\u00e7\u00e3o do cristianismo com os povos e suas respectivas culturas, com atestam seus pronunciamentos na Confer\u00eancia de S\u00e3o Domingo, durante a realiza\u00e7\u00e3o dos S\u00ednodos e na carta apost\u00f3lica Rumo ao Novo Mil\u00eanio.<br \/>\nOutras iniciativas fora da Igreja conseguiram criar o Dia Nacional da Consci\u00eancia Negra (20 de novembro), em mem\u00f3ria de Zumbi, l\u00edder do Quilombo dos Palmares, destru\u00eddo em 1694, na Serra da Barriga, Alagoas, com o intuito de despertar para o exerc\u00edcio da pol\u00edtica como meio de se alcan\u00e7ar a cidadania, na luta pela posse da terra com a reforma agr\u00e1ria e o direito \u00e0s terras remanescentes dos quilombos.<br \/>\nContribui\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica<br \/>\nDentre os bispos que mais se envolveram com a causa do negro, encontra-se dom Jos\u00e9 Maria Pires, arcebispo-em\u00e9rito da Para\u00edba. Ele \u00e9 considerado um dos principais respons\u00e1veis, juntamente com alguns padres, pela elabora\u00e7\u00e3o da proposta apresentada, em Medellin, tratando da realidade do negro no Brasil.<br \/>\nAssim como dom G\u00edlio Fel\u00edcio, rec\u00e9m-nomeado bispo-auxiliar de Salvador por Jo\u00e3o Paulo II, o arcebispo da Para\u00edba incentiva a liturgia afro, a ado\u00e7\u00e3o de um rito afro-brasileiro e a cria\u00e7\u00e3o, junto \u00e0 CNBB, de um secretariado pr\u00f3prio.<br \/>\nA Missa dos Quilombos e a celebra\u00e7\u00e3o durante o Comla (Congresso Mission\u00e1rio Latino-Americano) chamaram a aten\u00e7\u00e3o para a riqueza da religiosidade de um povo, inserida na Igreja desde o tempo da escravid\u00e3o e respons\u00e1vel pela organiza\u00e7\u00e3o dos negros escravos e seus descendentes nas Congadas, nas Irmandades e Confrarias de Nossa Senhora do Ros\u00e1rio dos Pretos, de S\u00e3o Benedito, Santa Ifig\u00eania e na constru\u00e7\u00e3o de bel\u00edssimas igrejas em S\u00e3o Paulo, Rio de Janeiro e Salvador, que hoje fazem parte de nosso patrim\u00f4nio hist\u00f3rico e cultural.<br \/>\nEssas festas ainda podem ser vistas, enriquecendo a Igreja e fazendo parte da tradi\u00e7\u00e3o cat\u00f3lica. Assim como as celebra\u00e7\u00f5es atuais, elas retratam o gosto e estilo dos afro-descendentes que, como os antepassados, expressam uma religiosidade festiva, irmanados na defesa e preserva\u00e7\u00e3o de seus direitos.<br \/>\nCelebra\u00e7\u00e3o diferente<br \/>\nNem sempre essas celebra\u00e7\u00f5es s\u00e3o compreendidas e assimiladas por fi\u00e9is e religiosos, porque agregam s\u00edmbolos considerados estranhos \u00e0 liturgia tradicional. &#8220;Existe um significado para a utiliza\u00e7\u00e3o do atabaque, do berimbau, para as vestes dos padres e dos trajes de um colorido vivo usado por mulheres e crian\u00e7as durante as prociss\u00f5es da Palavra e do ofert\u00f3rio&#8221;, explica o padre Enes.<br \/>\nSegundo o padre, esse ritual expressa a universalidade dos s\u00edmbolos pertencentes \u00e0 cultura africana que transcende o dom\u00ednio das religi\u00f5es. \u00c9 por isso que a missa afro n\u00e3o \u00e9 celebrada freq\u00fcentemente, s\u00f3 em ocasi\u00f5es especiais e preparada com zelo pelos Agentes de Pastoral Negros para o Dia Nacional da Consci\u00eancia Negra e nas ordena\u00e7\u00f5es como a do di\u00e1cono Devanil Ferreira, da Congrega\u00e7\u00e3o dos Oblatos de S\u00e3o Jos\u00e9, presidida por dom G\u00edlio Fel\u00edcio, em fevereiro, na cidade de Apucarana (PR).<br \/>\n&#8220;\u00c9 um rito cat\u00f3lico inculturado. N\u00e3o fazemos sincretismo, isto \u00e9, misturar elementos dos cultos africanos \u00e0 celebra\u00e7\u00e3o&#8221;, acrescenta o di\u00e1cono, que coordena a Pastoral Afro no Santu\u00e1rio Santa Edwiges, no bairro do Sacom\u00e3, S\u00e3o Paulo, e h\u00e1 quatro anos vem organizando celebra\u00e7\u00f5es desse tipo para a comunidade e representantes de v\u00e1rios movimentos negros.<br \/>\nDurante o ofert\u00f3rio, por exemplo, n\u00e3o s\u00e3o mais apresentados os s\u00edmbolos do sofrimento e tortura lembrados durante a Campanha da Fraternidade de 1988, cujo tema -&#8220;Ouvi o clamor desse povo&#8221; &#8211; denunciou a marginaliza\u00e7\u00e3o do negro. Agora s\u00e3o levadas ao altar as vit\u00f3rias e perspectivas representadas num livro pelo acesso \u00e0 educa\u00e7\u00e3o ou nas atividades de um profissional liberal, assim como elementos da natureza como a terra, a \u00e1gua, o fogo representando as origens da vida e os frutos do trabalho do homem.<br \/>\nANSEIOS DE LIBERTA\u00c7\u00c3O<br \/>\nProibidos de prestar culto \u00e0s divindades africanas e freq\u00fcentar as mesmas igrejas dos senhores, os negros resolveram fundar as Confrarias e as Irmandades do Senhor do Bonfim, de Nossa Senhora do Ros\u00e1rio, de S\u00e3o Benedito, de Santa Ifig\u00eania, de S\u00e3o Jorge, de Santo Elesb\u00e3o, de Santo Ant\u00f4nio de Categer\u00f3, de S\u00e3o Gon\u00e7alo, que se expandiram pelo Brasil.<br \/>\nNessas devo\u00e7\u00f5es foram inseridos festejos populares como a coroa\u00e7\u00e3o do rei e da rainha congos, as chegan\u00e7as e seus almirantes, capoeira e batuques, tudo incrementado com cantoria e rituais que lembravam a \u00c1frica. O povo bantu \u00e9 considerado respons\u00e1vel por trazer ao Brasil \u00e0s devo\u00e7\u00f5es a Nossa Senhora do Ros\u00e1rio e S\u00e3o Benedito levadas ao Congo por mission\u00e1rios portugue-ses. Nessas ocasi\u00f5es, podia ocorrer tamb\u00e9m uma maior aproxima\u00e7\u00e3o entre brancos e negros que se divertiam nos folguedos, fazendo da rua um espa\u00e7o democr\u00e1tico, ignorando &#8211; ainda que por um certo tempo &#8211; as diferen\u00e7as sociais.<br \/>\nTUDO EM COMUM<br \/>\nAl\u00e9m do aspecto religioso, as irmandades e confrarias tinham objetivos humanit\u00e1rios e de fraternidade, onde todos se irmanavam na luta e defesa dos escravos, fortalecendo a religiosidade, o culto aos mortos, o desejo de ser alforriado e a consci\u00eancia dos princ\u00edpios de liberdade.<br \/>\n&#8220;Existem algumas experi\u00eancias muito bonitas neste per\u00edodo. Os negros que conseguiam carta de alforria trabalhavam como biscateiros e ajuntavam suas economias. Na festa de Nossa Senhora do Ros\u00e1rio ou S\u00e3o Benedito, eles abriam o caixa comum e resgatavam a liberdade de outros escravos. Isso demonstra um cristianismo forte, comprometido com a solidariedade&#8221;, revela o padre Enes. Tamb\u00e9m as irmandades mantinham nos terrenos pr\u00f3ximos \u00e0s igrejas pequenas casas habitadas por africanos livres, muito pobres, que chegavam a montar quitandas onde vendiam doces, gel\u00e9ias, frutas, legumes e hortali\u00e7as.<\/p>\n<p>Linck de onde foi buscado o artigo<br \/>\n<a href=\"http:\/\/www.pimenet.org.br\/noticias.inc.php?&#038;id_noticia=3802&#038;id_sessao=2\">http:\/\/www.pimenet.org.br\/noticias.inc.php?&#038;id_noticia=3802&#038;id_sessao=2<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Revista n\u00ba 32, de mar\u00e7o de 1999, p\u00e1gina 38, artigo Ra\u00edzes de um povo religioso, de autoria de Maria Jos\u00e9 de Deus. 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